Notícias de Guaratiba

O grande circo do transporte carioca

Publicado em 12.04.2010

Texto: Ronaldo de Andrade - Editor do Portal da Pedra.

O carioca já sabe que não é positiva a diversidade de veículos que vem ocorrendo nos meios de transporte da cidade do Rio de Janeiro. Os passageiros no decorrer desses anos vem observando uma lenta e generalizada anarquia no que tange principalmente aos serviços de ônibus municipal, intermunicipal, trens e outros meios de transporte.

Em torno de 20 anos atrás, comentou-se que a Prefeitura do Rio havia instituído, ou pelo menos tencionava instituir um modelo único de carroceria para operação dos ônibus. Para tanto teria sido escolhido o modelo “padron” que seria fabricado pelas indústrias de carrocerias existentes. Quem lembrar daqueles ônibus que faziam a ligação “Norte-Sul” da extinta empresa CTC (no Governo do falecido Leonel Brizola), terá ideia do modelo que aqui se quer descrever. Eram carros modernos, de janelas amplas e portas largas, que permitiam o embarque e desembarque simultâneo de dois passageiros (ao invés de um por vez como ocorre até hoje).

Esses carros partiam da Estação São Cristóvão e chegavam a bairros da zona sul através do túnel Rebouças. Desta época para cá a “coisa ficou feia” e o povo clama: “- Que Deus nos acuda”. Dentro de uma mesma linha encontramos ônibus normal (46 passageiros sentados), ônibus longo (52 passageiros sentados), miniônibus e micro-ônibus. Há empresas que substituíram toda a frota de ônibus normais por micro-ônibus. Em outras essa mudança de tamanho de veículo funciona de acordo com a vazão horária (trocam no horário do rush). Existem também dentro de uma mesma linha, ônibus de piso normal (geralmente com chassis montados em carroceria feitas para caminhões) e de piso baixo. Esses (os de piso baixo) deveriam ser o padrão para todo o estado já que facilita sobremaneira o embarque de idosos, crianças, gestantes e deficientes.

Outro dia destes ao embarcar em um dos novos carros da linha “Caxias-Freguesia” em Jacarepaguá , tive muita dificuldade dada a altura exagerada do chassi do veículo (observando que tenho estatura mediada, característica dos cidadãos do sudeste do pais). Apesar do sistema de bilhetagem eletrônica estar implantado em toda a região metropolitana, a confusão na hora do embarque continua a confundir (principalmente aos idosos). Nas linhas que servem aos municípios vizinhos, o embarque é efetuado pela porta traseira, servindo a dianteira para o desembarque e nas linhas municipais, a coisa é feita ao contrário, sem contar que existem ainda um grande número de veículos novos com uma porta central para embarque e desembarque de cadeirantes.

Por falar nisso, vocês já viram algum cadeirante embarcado num desses ônibus? É, pois é! Eu também nunca vi e fala-se pelas ruas que a maioria dos motoristas que os conduzem não sabem operar o elevador de acesso desses portadores de necessidades especiais. Temos observado que cadeirantes ou deficientes visuais são renegados por alguns motoristas que quando os vêem nas paradas do sistema, simplesmente fingem não os enxergar.

Piorando essa confusão há linhas em que a operação é mantida através de carros com motorista e cobrador misturados a carros só com motorista desempenhando também a função de cobrador. Essa mobilidade vem sendo responsável por acidentes graves em nossas ruas. Em Jacarepaguá um motorista ao fazer o “troco” de passageiros, atropelou e matou cinco ciclistas.

Aumentando o elenco desse circo no qual se transformou o transporte do carioca, surgiram os ônibus do tipo “fresquinho”, que juntaram-se aos convencionais anteriormente existentes e aos antigos “frescões”. A saber; “fresquinho” é o apelido dado pelo carioca aos ônibus convencionais que possuem ar condicionado. Em determinadas linhas, como a de número 882 (operada pela empresa Expresso Pégaso) chegam a coexistir três tipos de carros diferentes operando em um mesmo trajeto. Nesse caso particular, a coisa piora quando constatamos que a “bandeira” (visor com letreiro) dos veículos de cinco trajetos possuem o mesmo número:

882 (Barra da Tijuca / Santa Cruz)

882 (Barra da Tijuca / Santa Cruz) c/ar condicionado

882 (Barra da Tijuca / Sepetiba)

882 (Barra da Tijuca / Pingo D´Agua)***

882 (Santa Cruz / Piraquê)

A comunidade e comerciantes de P.de Guaratiba vem tentando sem êxito, a troca da “bandeira” “Pingo D´Agua” para “Pedra de Guaratiba” ou “Pedra” a fim de dirimir a confusão estabelecida junto aos turistas e visitantes que procedem ao bairro e estão tendo dificuldades em chegar lá dada a mudança no itinerário da linha não divulgada na mídia.

No serviço ferroviário da empresa Supervia, modernos (coreanos) e reformados trens, rápidos, limpos e com ar condicionado, circulam nos mesmos trilhos onde verdadeiras sucatas ambulantes “servem” aos passageiros. O pior é saber que a empresa cobra pela viagem em composições sem iluminação, ventilação, com portas que não fecham e peças que caem nos trilhos, o mesmo valor de passagem instituído para quem viaja nos novos trens adquiridos pela empresa.

As composições de trens “coreanos” da linha Deodoro, fora das horas de rush, são realocados para percursos como o de Bangu e Saracuruna. É satisfatório constatar estações anteriormente deterioradas plenamente funcionais e limpas, com bilhetagem eletrônica, escadas rolantes e modernas lanchonetes (ex.: São Francisco Xavier no ramal Deodoro) contrastando com outras como as de Nilópolis e Nova Iguaçu, inadequadas e sem a maioria destes modernos itens. Isso transforma-as em obsoletas inclusive ao número de passageiros que por elas diariamente transita. Aliás nota-se claramente um processo “preferencial” nas benfeitorias aos ramais que percorrem o município do Rio (Deodoro e Santa Cruz) em relação aos outros da Baixada Fluminense (Belford Roxo e Japeri). Apesar dos projetos de ampliação ou criação de novos ramais como o da Ilha do Governador e Sepetiba, esses não são postos em prática, ao contrário da cidade de São Paulo, onde os trens recentemente chegaram ao autódromo de Interlagos e em breve aliados ao metrô estarão no Aeroporto de Guarulhos. Apesar de novos trens terem sido adquiridos (chineses) estes serão entregues junto com os lotes das composições do metrô, em 2012.

A maior vergonha em relação aos trens na área metropolitana é constatada no ramal de Vila Inhomirim cujas composições partem de Saracuruna (Duque de Caxias). Apesar da situação de risco supremo aos passageiros e das precárias condições, ninguém sabe como funciona até hoje. São trens de bitola estreita com portas e janelas que não fecham, sem partes do teto, do piso, de paredes e sem a “sanfona” nas passagens entre os vagões. Estes que são puxados por locomotiva diesel encontram bois circulando nos trilhos onde não é feita manutenção, a sinalização não funciona na maioria das passagens de nível e as estações encontram-se em semi-abandono. Muitos dos passageiros embarcam sem pagar a passagem dada as diversas chances que estes possuem para essa prática. Não se tem conhecimento de nenhum projeto de melhoramento ou benefício para esse ramal e dado a isto, seus passageiros estão se evadindo para as linhas de ônibus apesar da passagem ser por vezes até três vezes mais cara e a chegada ao destino quase sempre garantida. Em uma outra oportunidade, falaremos das barcas, dos bondes e do metrô.