Notícias de Guaratiba

Favelização e desmatamento

Texto de Marco Aurelio Barçante – arquiteto e planejador urbano.

Publicado em 20.04.2010

Podemos observar que os desmatamentos provocados pelas ocupações desordenadas do solo urbano, tornam-se os principais obstáculos para as proteções das áreas determinadas como de preservação e conservação, em áreas urbanas.

As necessidades sociais das populações de baixa renda (trabalhadores urbanos e desempregados), que mal ganham para sua sobrevivência, devido ao alto índice de concentração de renda existente no país e, consequentemente, dos baixos salários que recebem, são as grandes responsáveis desta situação, que se percebe em qualquer município ou região que inicia seu “crescimento econômico”.

Estes centros saem daquela situação de vida mais simples e se envolvem na roda ativa da acumulação de capital, provocada pelos impulsos que recebem, ou por seus dotes vocacionais ou ainda por alocação de investimentos industriais para lá destinados por projetos públicos ou da iniciativa privada ou na simbiose de ambos.

As favelas se iniciaram no Rio de Janeiro, conforme demonstra a historiografia, em inicio do século XX, com a ocupação do Morro da Providência, quando do retorno dos soldados da Guerra dos Canudos. Até hoje elas não param de crescer, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Terceiro Mundo, como consequência deste modelo concentrador de rendas.

Os centros urbanos, conforme crescem atraem as populações do interior e principalmente dos meios rurais, em busca de melhores condições de vida. A vida no campo é deplorável, bem pior que a da favela, principalmente porque não se desenvolveu uma política eficaz de reforma agrária, com as edificações das vilas produtoras agrárias, que a nosso ver, é uma forte alternativa para o campo. Daí, após 1930, inicia-se o grande êxodo rural, trazendo mão de obra para o processo de industrialização, fomentado após o primeiro governo de Getulio Vargas.

Há de se entender, que os trabalhadores têm de lutar por alcançarem um piso salarial, ao menos aproximado aos do primeiro mundo, quando só aí, terão condições de ter uma vida com um mínimo de dignidade. E nossos governantes precisam ter esta compreensão para elevarem nossa sociedade a este patamar.

Com salários dignos, as populações mais pobres saberão resolver suas moradias, dentre as ofertas do mercado e não necessitarão de ocupar os morros, encostas e áreas de proteção. Sem salários, não há mercado nem governo que impeça o aumento das favelas, como solução de moradia para estas populações.

Já que há de salvarmos, com urgência, as florestas, as encostas e as áreas de preservação, de seus desmatamentos, usos incompatíveis e de ocupações irregulares, já que é tão importante para a sustentabilidade e para a diminuição do aquecimento global, já que é necessário e urgente, salvarmos vidas inocentes provenientes destes desastres e outras que ainda poderão se perder, julgamos que, em nossas cidades, isto só seja possível com a permissão da ocupação mínima controlada dessas áreas.

A posição de Marco Aurélio também é defendida pelo Professor Leonardo Becker do Departamento de Construção Civil da UFRJ. Veja em matéria divulgada esta semana no JB.

Leia na íntegra o ensaio de Marco Aurelio Barçante sobre o tema