Notícias de Guaratiba

Construção da Avenida das Américas em Guaratiba na década de 60 traçou o destino dos habitantes

Publicado em 22.12.2010

Hoje o progresso chega a Guaratiba. As máquinas rasgam a terra e vemos atônitos chegar cada vez mais perto as obras que transformarão totalmente a região. É irreversível e nada pode nem deve impedir que as mudanças aconteçam, mas daí a não se respeitar o direito do cidadão que mora na terra, que herdou não só a terra, mas os costumes de tres ou quatro gerações não faz sentido. As máquinas não podem simplesmente desrespeitar o direito dos habitantes da região. Empregados das empreiteiras chegam com arrogância dizendo que os moradores são invasores e que devem desocupar a terra.

É preciso que se entenda que os habitantes por ventura no traçado da Transoeste não são "invasores" como dizia o empregado da empreiteira, são "posseiros" e a posse, a partir da Constituição de 1988, passou a ter um papel extremamente relevante para a efetivação do direito à moradia, que é um direito fundamental, o princípio da dignidade da pessoa humana e não há vida digna para uma pessoa que não tem um lugar onde possa construir a sua moradia.

Marcos Henrique Pereira de Araújo nos procurou denunciando os desmandos dos empregados da empreiteira responsável pelas obras na Ilha de Guaratiba. Relatava que chegaram com as motoserras querendo derrubar as árvores, dentre elas o Pau Brasil (já catalogado pelo IBAMA), Jaqueiras, Laranjeiras, Palmeiras, etc... em sua chácara de plantas. Pintaram na parede de sua casa SMH08 e disseram que teria de se virar, ele e os cachorros.

Fomos atrás da história do lugar que hoje é conhecido como "Olaria" e descobrimos coisas interessantes que justificam inclusive uma atitude de bom senso e respeito por parte da Prefeitura e das empreiteiras, tendo em vista a história do lugar e de que maneira foram ocupadas aquelas terras.

A ocupação do local começa muito antes da construção da Avenida das Américas há mais de 50 anos atrás. Um oficial do antigo quartel da marambaia, um major de nome João Gilberto, explorava aquelas terras, desde a Ilha de Guaratiba até um local que muitos conhecem como maré, que é onde o mar encosta lá dentro do manguezal. Nessas terras o "Major" como era conhecido por todos plantava diversos tipos de legumes e frutas que comercializava nos mercados do Rio de Janeiro. Parte das terras, onde hoje está situado o Caminho do Abreu se prestava como pasto para as cabeças de gado de sua propriedade. Vó Nenem, de 98 anos, moradora ainda no Caminho do Abreu se lembra bem daqueles tempos. Segundo ela até jacaré o Major criava num lago grande que hoje margearia a estrada se ainda existisse.

"-Foi nessa época que conheci o que era a ferramenta pra pegar Jacaré", disse Vó Neném ao se lembrar da cena.

Nessa época com mão de obra desqualificada na região, o Major importava trabalhadores de Minas Gerais e Espirito Santo para trabalhar na lavoura, e deixava que morassem por ali nas redondezas em suas casinhas de "pau a pique" construídas as pressas. O local foi sendo povoado por esses habitantes e seus descendentes, que se agregavam a esses núcleos familiares criando assim uma comunidade que mais tarde seria dividida com a construção da Avenida das Américas.

Parte dos habitantes ficou do lado direito da Avenida, onde hoje deverá passar a nova estrada e a outra parte "os sortudos", ficaram na margem oposta, no Caminho do Abreu e vão receber o título de propriedade dos terrenos entregues pela Secretaria de Patrimonio da União. Em ambos os casos verifica-se a legitimidade de ocupação pela "posse" desconfigurando a figura de "invasor" como querem alguns.

Maria Francisca Rodrigues, a Vó Neném de 98 anos é a matriarca de uma família que a tres gerações ocupa o local.

"-Primeiro eu vim para trabalhar com o Major, depois minha filha Dila, a Rosângela e agora a Marcia, tudo trabalhando e morando aqui". São várias tataranetas de Vó Neném, inúmeros parentes e tanta gente que ela não sabe bem quantos são.

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