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Professora Sueli Santos Gaspar um exemplo de vida e determinação

Publicado em 30.09.2010

Sueli Santos Gaspar é atualmente a diretora do CIEP 1ª de Maio, situado na Avenida Antares em Santa Cruz, apesar da escola estar localizada entre as favelas do Rola e Antares, ainda assim, ficou em primeiro lugar na Provinha Brasil, um exame do MEC (Ministério da Educação e Cultura) que avalia o nível de alfabetização. Essa é uma vitória a ser creditada aos alunos por seu empenho com também à dedicação de sua diretora.

Talvez por isso, em novembro, a professora Sueli deverá ir a Nova York como prêmio que recbeu da Prefeitura pelo Terceiro Lugar no IDEB (Índice de Desenvolvimento da educação Básica), com a nota 5,9 entre 150 escolas do amanhã. Um fato interessante e que torna ainda mais importante esse prêmio, é a história de vida, dedicação e comprometimento des ta guerreira que a despeito das dificuldades pelas quais teve de passar, conseguiu realizar seu sonho, o de se tornar professora, chegando após anos de luta galgar este cargo na diretora da escola em que começou sua carreira como merendeira.

Seus pais, uma lavadeira e um guarda noturno, não conseguiram, assim como muitos pais por esse Brasil afora, aumentar as chances da filha que cedo teve de buscar emprego no mercado de trabalho com apenas a 6ª série do primeiro grau no currículo. Segundo suas próprias palavras em uma recente entrevista da Jornalista Gabrielle Novaes para a rede Bandeirantes de televisão, "sua história serve de incentivo para que as pessoas estudem e não desistam de seus sonhos, pois o estudo é a única porta para o sucesso".

De merendeira a diretora foram anos de dedicação e amor ao próximo, conheça um pouco mais de sua história.

Como a senhora chegou a diretora-geral no município tendo sido servente e com apenas a 6ª série?

Sueli: Eu sempre fui muito amorosa com as pessoas. Na cozinha, era a primeira a chegar. Fervia o leite para que nenhuma criança passasse mal. Até que um dia precisaram de uma pessoa para ficar no portão. Comecei então a trabalhar como agente de portaria. Eu não me limitava a abrir e fechar portão, eu recebia as crianças com muito carinho. Dali, trabalhei como inspetora de alunos e depois fui para a secretaria, mas sempre me preocupando com as pessoas.

Mas a senhora não tinha muita escolaridade?

Muito pouca. Todos os dias, antes de ir para a escola, eu cursava supletivo. Anos mais tarde, com o salário, eu pagava uma escola particular, onde cursei o Normal. Houve época em que acordava às 3h30, em Santa Cruz, pegava trem e ônibus para estar na escola às 6h, no Centro. Mais tarde, comecei a faculdade de Letras. Minhas duas filhas eram pequenas e eu estudava até duas da manhã. Mas não desistia.

E como foi o seu primeiro emprego como professora?

Eu tive que entrar na Justiça para tomar posse no cargo, porque eu tinha sido aprovada num concurso para a Prefeitura do Rio antes de terminar o curso Normal e não tinha o diploma. Ganhei na Justiça e assumi a primeira turma na Escola Municipal Tenente Renato Cesar, em Santa Cruz. Ali foi a base de tudo. Peguei uma turma do 1º ano com crianças que tinham sido reprovadas cinco vezes. A autoestima delas era horrível. Fingi que elas tinham passado para o 2º ano. Elas só precisavam acreditar nelas. Não foi difícil transmitir isso para os alunos, porque eu mesma já vinha de uma vida de sacrifício.

Que lembranças marcaram nessa época?

No dia da formatura, foram 40 fotos com choro. Todos tinham conseguido superar seus limites e com histórias muito difíceis. Me lembro de um aluno chamado Adriano que tinha medo de ler. Eu sabia que ele tinha condições. Mas ele não acreditava. Então, um dia, falei: 'Adriano, hoje, depois do almoço, você vai ler'. Ele voltou do refeitório e vomitou no livro. Eu não briguei com ele. Limpei tudo e falei: 'Você pôs para fora os seus medos. Agora vamos ler'. Foi um dos meus melhores alunos.

Pela sua experiência em sala de aula, podemos dizer que, em alguns casos, o problema está mais no professor do que no aluno?

Acredito que sim. Eu tive um aluno muito indisciplinado que havia passado por cinco professores. Nem a mãe dele acreditava. Um dia, ela me disse: 'Hoje eu acredito realmente que um ser humano pode mudar. Porque meu filho é outro'. Eu só levantei a sua autoestima. Dizia que ele era bonito e elogiava as tarefas dele. Meu lema sempre foi ajudar os mais fracos e fortalecer os fortes.

Que ações foram feitas para estimular o aprendizado e o gosto pelos estudos?

Eu tinha uma turma do 2º ano do Ensino Fundamental em que a professora anterior era tão castradora que eles não tinham autonomia nem para escolher onde sentar em sala de aula. Foi aí que tive a ideia de desenvolver o projeto Borboleta. Através de dobraduras que se transformam em borboletas, as crianças estudavam as figuras geométricas. Depois, aprendiam Ciência com a vida dos insetos e, por último, Literatura a partir de poesias. Nessa época, eu pesava 125 quilos e cheguei ao fim do projeto com 85 quilos. Percebi que também precisava me transformar para servir de exemplo para as crianças. Em tudo o que eu faço, sou movida por desafios.

Qual foi o maior deles?

Quando fui ser diretora no Ciep 1º de Maio, em Antares, Santa Cruz. No primeiro dia, encontrei os dois portões escancarados, banheiros depredados e portas e vidros quebrados. A escola já tinha sido furtada 23 vezes. Haviam levado tudo. Computadores, aparelhos de televisão, vídeos, até a fiação elétrica. Não tinha nada. Era cada um por si.

Como a senhora conseguir reduzir a zero os roubos na escola?

Eu ganhei o respeito da comunidade. Com a primeira verba que recebemos, reformei o refeitório para dar dignidade às crianças e comprei um aparelho de som. Todos os dias, eu descia ao pátio e falava ao microfone: 'A escola é de vocês. Se ela foi destruída é porque vocês permitiram'. Mostrei que tudo ali pertencia àquela comunidade. Aos poucos os furtos foram parando, até que zeraram totalmente.

Como os pais reagiram?

No começo, os atrasos eram constantes, e os alunos não iam com o uniforme. Comecei a cantar o hino e hastear a bandeira. Quem não chegava no horário ficava do lado de fora. No microfone, eu agradecia às mães que mandavam as crianças arrumadinhas, e as outras foram seguindo o exemplo.

E os professores?

Na primeira reunião, eles atendiam o celular, liam revistas. E eu falando para as paredes. Até que bati a mão na mesa e disse que, a partir daquele dia, professor só tinha uma função na escola: ensinar; e o aluno: aprender. Quinze professores pediram para ir embora. Restaram só nove. Mas todos comprometidos com o futuro daquelas crianças.

Qual a maior lição que a senhora tenta passar?

Que o estudo é a única porta para o sucesso e que qualquer um é capaz de ser o que quiser na vida. Temos que oferecer perspectivas. Antares e Rola precisam formar médicos e professores. O mundo só tem graça quando nosso ideal é coletivo e a educação é a única coisa que o vento não leva.

Fonte: Portal SantaCruzTudodeBom

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