Notícias de Guaratiba

Transoeste deverá cruzar reserva arqueológica e biológica de Guaratiba

Publicado em 30.10.2010

Começaram as obras da Transoeste em nova frente de trabalho na Ilha de Guaratiba. A Odebretch rasgou a terra escura e começa a avançar na direção do mangue, ao se observar a obra e a direção que toma, e revisitar os planos da Prefeitura, verifica-se que a estrada deverá cruzar ou no mínimo acompanhar a região limítrofe à Reserva Biológica e Arqueológica de Guaratiba e cruzar canais que já foram ocupados na préhistória.

Conversamos com alguns empregados da empreiteira contratada para abrir a frente de trabalho e ficamos sabendo que aparentemente somente geólogos foram contratados para fiscalizar e acompanhar as obras da estrada. Segundo Alexandre Pantaleâo, diretor de Assuntos Institucionais do CEPAG (Centro de Estudos Projetos e Ações de Guaratiba), seria importante que um arqueólogo também acompanhasse a obra, pois esse profissional possui olhos mais treinados na localização de restos e artefatos de antigas civilizações.

-"Já foi encaminhada uma representação ao Ministério Público pelo CEPAG solicitando a criação de uma equipe multidisciplinar para acompanhamento do projeto na região tendo em vista tratar-se de uma obra que cruzará a mais importante reserva biológica e arqueológica do Estado do Rio de Janeiro", afirmou Pantaleão.

Os Sambaquis de Guaratiba

Segundo apuramos, a pré-história da região de Guaratiba remonta a 3.000 a.C e mais recentemente, data da segunda metade do século XVI o desbravamento da região, e, segundo pesquisas arqueológicas realizadas sob a coordenação da professora e arqueóloga Lina Maria Kneip da UFRJ, Guaratiba abrigou, durante 1000 anos, povos coletores e pescadores préhistóricos. O sambaqui "Zé Espinho" já se tomou internacionalmente conhecido graças aos estudos de Lina.

Os resultados dessas pesquisas revelaram que os homens possuiam uma estatura média de 1,61m e as mulheres 1,59m (considerada de forma geral de média baixa). A alimentação principal era o consumo de moluscos; capturavam facilmente, no manguezal, peixes como pirauda, bagre, tainha, enchova, corvina que penetravam pelos canais de marés para reprodução, desova e crescimento. Possuiam também muitas espécies de frutas e já praticavam a coleta vegetal.

Em decorrência de essa dieta alimentar (rica em cálcio e sais minerais), constatou-se desgaste dentário, mas ausência de cárie. Ocasionalmente se alimentavam de animais como mão-pelada, porco do mato, gambá, tartaruga marinha e aves. Foram encontrados vários objetos (armas, adornos e utensilios) feitos de osso, concha e pedra e, num periodo posterior, peças de cerâmica. Utilizavam o fogo para cozinhar, aquecer, iluminar e também para rituais. Enterravam seus mortos em decúbito lateral direito, de preferência na parte leste do sambaqui. A pesquisa revelou também que dos 33 sambaquis localizados em Guaratiba, 45% foram totalmente destruídos, 15% estavam parcialmente destruídos e 40% permaneciam intactos. A destruição foi em conseqüência de fabrico de cal, farinha de ostra, aterro, cultivo e obras de urbanização.

A especialista em antropologia biológica Sheila Mendonça de Souza, do Museu Nacional e da Fundação Oswaldo Cruz, acrescenta que outra característica do sambaquieiro era a grande forca fisica. Tinha músculos poderosos o suficiente para que suas marcas permanecessem nos ossos até cinco mil anos após a morte. Para alguns arqueólogos, a vida no mar, com pesca e uso de canoas, dava a essa gente uma constituição robusta. As centenas de esqueletos de homens, mulheres e crianças encontrados, indicam também grande diversidade populacional.

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