Notícias de Guaratiba

Uma 'misteriosa força' ronda o eleitor de Guaratiba, Campo Grande e Santa Cruz

Publicado em 30.11.2010

Texto de Carlos Eduardo Sarmento
Carlos Eduardo Sarmento é Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ

Nos primeiros anos do regime republicano, políticos e jornalistas costumavam debater acerca de uma singular característica evidenciada pelos resultados eleitorais apurados na cidade do Rio de Janeiro. Estarrecidos, questionavam sobre a "misteriosa força do triângulo". Como seria possível compreender a eleição de vereadores, deputados e até mesmo senadores, praticamente desconhecidos e sem presença nos mais significativos órgãos da imprensa carioca, oriundos das ermas e escassamente povoadas regiões do então denominado "triângulo carioca": o espaço de limites imaginários que agregava as localidades de Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba?

Parecia inconcebível que uma área tão distante do centro da cidade, de baixíssima densidade demográfica e que figurava como a antítese "sertaneja" ao cosmopolitismo urbano da Capital Federal pudesse apresentar altos índices de participação eleitoral e garantir, através de uma inabalável coesão dos sufrágios, a pavimentação das carreiras de representantes de base estritamente local. Caldeira de Alvarenga, Augusto de Vasconcelos e Cesário de Melo figuravam como exemplos dessas lideranças políticas da chamada "área rural" do município que viriam a desempenhar papéis relevantes ao longo da Primeira República.

Graças aos trabalhos de historiadores como Américo Freire e Surama Pinto, é possível se entender que a força do "triângulo" não se calcava em nenhum poder misterioso, mas sim em um pragmático cálculo político. Valendo-se da legislação eleitoral vigente, que eximia o Estado de responsabilidades sobre o processo de cadastramento de eleitores, os grandes chefes políticos operavam a inscrição e o reconhecimento dos eleitores aptos através de práticas de exercício personalista de poder.

Desta forma, apenas aqueles que se configuravam como votantes fiéis e controláveis obtinham condições formais de participação nos processos eleitorais. A esfera pública se diluía em canais de operação marcadamente privados, refletidos em um eficiente intercâmbio: acesso a bens e serviços públicos intermediado por redes privadas de controle do capital político.

O crescimento demográfico dessa região, aliado ao estabelecimento da Justiça Eleitoral, contribuiu para a pulverização desse sistema de controle de votos, mas não aboliu a sua lógica. Durante os anos 50 e 60, lideranças petebistas enxergavam a então Zona Rural como o caldo de cultura ideal para o ensaio das estratégias da nascente política de massas no país. Mais uma vez, a tônica preponderante era a de garantir condições para intermediar privadamente a distribuição de recursos públicos: acesso à eletrificação, à saúde, à educação e ao abastecimento de água (engendrando as bases da mui conhecida política assistencialista da "bica d'água").

Novamente, lideranças personalistas, como Miécimo da Silva, exerciam o controle político sobre o eleitorado dessa região. Desde então, o grande embate se caracteriza pela tensão entre as esferas públicas e privadas de alocação e circulação de capital político nas áreas da Zona Oeste carioca. Microcosmo dos dilemas da institucionalização política nas metrópoles contemporâneas, observamos, a cada novo pleito, a reiteração do poder pessoal buscando vias de subjugação e controle das esferas públicas. Milicianos, líderes de cooperativas de vans, distribuidores de botijões de gás, chefes de centros sociais reencenam, em pleno século XXI, a tragédia política do "misterioso" controle sobre os canais de representação e participação política na região.

 

Fonte: Matéria publicada originalmente pelo CPDOC da Fundação Getúlio Vargas em 15/09/2010 às 23h26m pela FGV

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