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Editorial do Portal e Coluna Fala Cidadão

Atualização quinzenal - Editorial publicado em 02.07.2010

O canto da sereia da TKCSA

Vamos torcer para que a implantação desse pólo industrial na região não se transforme no canto da sereia que acabará por destruir nossas esperanças.

Texto: Sergio Mello - Editor do Portal Guaratiba.

Quando os marinheiros ouviam sereias cantando, era mais ou menos como o vento que soprava por entre os mastros dos barcos, silvos que pareciam encantar os mais afoitos, e conta a lenda que os homens apaixonados pela beleza dessas criaturas metade mulher e metade peixe jogavam-se ao mar hipnotizados, morrendo em seguida.

Em nosso caso temos uma planta industrial que se assenta perto de Santa Cruz com promessas e encantos que podem seduzir quem por anos anseia por uma nova ordem regional. Quem mora por esses lados sempre esperou que fossem feitos investimentos que nos retirassem da pasmaceira em que vivemos. É bem verdade que Santa Cruz sempre foi beneficiada em detrimento dos outros bairros do entorno, e os poucos investimentos da região sempre escorregaram para ali. De bairro agrícola, de repente, não mais que de repente, roubando o grafismo do poeta, vimos se transformar numa possibilidade industrial com grandes investimentos na região. E como na lenda das sereias, os mais afoitos jogam-se nesse turbilhão de acontecimentos numa corrida transloucada como se todos os problemas fossem resolvidos pelo farfalhar das chaminés e o barulho da planta recém inaugurada.

O presidente Lula, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes na inauguração da planta industrial da Companhia Siderúrgica do Atlântico, na última sexta feira, se alternaram em elogios mútuos e improvisos exaltando a potência industrial em que se transformava o estado e a redenção social tão esperada por Santa Cruz e bairros vizinhos. Claro que todos pretendiam os dividendos políticos de adviriam desse ato. Nada que não se espera de um político de carreira.

Observa-se inclusive que o entorno da siderúrgica se transformou num verdadeiro canteiro de obras, afinal serão cinco milhões de toneladas de aço por ano, sendo que se espera exportar 40 % deste volume. É algo que o governo deve proteger e para isso várias medidas de apoio e infra-estrutura estão sendo providenciadas, afinal foi o maior investimento no setor siderúrgico feito nos últimos anos, cerca de 8,2 bilhões de dólares.

Mas e o povo? Quem mora ali ou nos bairros próximos, quem seduzido por um bom emprego ou somente por um emprego largou tudo e foi ao encontro dessa nova fronteira, dessa oportunidade, terá realmente as mesmas facilidades oferecidas às empresas? Serão construídos novos hospitais, escolas de diversos níveis, universidades, escolas técnicas, centros esportivos, moradias, saneamento, água tratada, transporte, enfim serão acrescidos na mesma proporção os investimentos necessários para suportar essa população crescente que deverá surgir ao longo dos anos? O Presidente Lula em sua fala garantiu que a empresa não precisava se preocupar, pois a mão de obra qualificada de que precisa seria preparada pelas escolas técnicas do município. Mas, que escolas? Onde? Serão 30 mil empregos que surgirão nos próximos anos, e é importante que os habitantes da região participem desse processo, mas para isso será necessário a construção de escolas técnicas que preparem nossos jovens.

Algumas iniciativas tímidas podem ser observadas, como a inauguração nesta quinta-feira (1) da primeira Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) de Itaguaí. A Transoeste que irá facilitar o acesso a Barra da Tijuca é um projeto para os próximos dois anos e já deveria estar construída, mas com transporte sobre trilhos com alta capacidade e não com BRTs. Outra promessa que deverá sair do papel é a reforma da Estação de Santa Cruz pela Supervia e um rabicho dos trilhos até Itaguaí. Realmente, essas são obras que irão beneficiar a população.

Se levarmos em consideração as atuais políticas de ocupação do solo urbano praticadas no município do Rio de Janeiro, é fácil profetizar não só um aumento na favelização próximo ao pólo industrial que surge como nos demais bairros que lhe dão acesso ou a meio do caminho. E no final das contas, os milhares de postos de trabalho que surgirão, trarão uma real demanda por serviços públicos que quintuplicarão as atuais necessidades de infra-estrutura. Vamos aguardar e torcer para que não fiquem nos discursos de louvação as boas intenções de nossos administradores e observem com cuidado as necessidades que se criam e se antecipem ao que vai acontecer no futuro para que a implantação desse pólo industrial na região não se transforme no canto da sereia que acabará por destruir nossas esperanças.

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Fala cidadão(ã)

Atualização quinzenal - Coluna Fala-cidadão(ã) publicada em 02.07.2010

Julgamento moral e cívico

Texto enviado por email - Wilmar Marçal / Professor universitário e ex-reitor da Universidade Estadual Londrina/Paraná

A frieza das letras manifestadas por alguns defensores na instância jurídica, data vênia, muitas vezes frustra a população que aguarda um judiciário firme e comprometido com o bem público. Mas é preciso obedecer e acatar, pois, segundo se sabe, é uma análise realizada com a arte e a ciência da razão e não da emoção.

Esse viés argumentativo tem tirado muito ladrão da cadeia, absolvido muitos traficantes e amparado pedófilos que são liberados e continuam machucando crianças e famílias. Essas possibilidades de contar com defensores deve e precisa continuar, pois a todos é permitido a ampla defesa e o contraditório. Lamentavelmente não se pode julgar com a emoção, razão pela qual, talvez, ainda existam muitos problemas sociais no país, pois os atos malditos coadunam com a perpetuação da impunidade.

Em outros países, quem comete um erro, morre duas vezes: primeiro de humilhação, depois retirando a própria vida pela falta de dignidade em continuar convivendo com pessoas de bem. Mas no nosso querido Brasil muitos fazem e acreditam que "não vai dar em nada". Todavia, como diz a própria Constituição Brasileira, "todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido", está na hora de uma reação popular para o exercício prático do bem: sem armas, sem violência e sem lágrimas.

Com a mesma frieza que o judiciário é peculiar em suas análises, a população, bem organizada, tem muito mais poder do que qualquer Juiz, data vênia. Basta querer e se organizar. Sem vaidades, sem trampolins, mas com ordenamento e inteligência. Especificamente sobre os parlamentares "escolhidos" pelo povo, é possível sim avançar e execrar esses bandidos que sempre são reeleitos e se dizem representantes do povo nas respectivas Assembléias.

O povo pode legislar com muito mais sapiência, no momento em que mantiver viva a memória de todos, nutrindo a lembrança com a boa informação em jornais e mídia comprometidos, verdadeiramente, com a causa coletiva. Chega dessa conversa fiada de "segredo de justiça" e "blindagem privativa". Bandido é bandido. É preciso destacar, em grande escala, os nomes daqueles que usurpam o dinheiro público, roubam a esperança de muitos e perpetuam a falsa bondade de atender os munícipes, prometendo mirabolantes projetos e recursos.

Quem viaja pelo interior do Paraná pode constatar que as cidades estão empobrecidas, com poucos investimentos em infra-estrutura, muita gente desocupada e doente. Cabe-nos como cidadãos e cidadãs uma reação natural e pacífica. Analise, pense, estude a vida dos candidatos a qualquer cargo público e vote. Vote de acordo com sua inteligência e coerência. Não se pode mais admitir que a população ainda se renda aos hipócritas, mentirosos e mentirosas. Só assim será possível um julgamento moral e cívico que, certamente, não encontrará habeas corpus em qualquer jurisprudência para liberar os pérfidos e os enganadores. Façamos cada um de nós a nossa parte. Vamos ensinar a pescar e parar de assistir algumas pessoas recebendo o peixe de graça.