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O portal da comunidade de Guaratiba.

Editorial do Portal e Coluna Fala Cidadão

Atualização semanal - Editorial publicado em 06.04.2010

Para onde caminha Guaratiba?

Vamos assistir a complacência das autoridades para com as favelas que se formarão na região

Texto: Sergio Mello - Editor do Portal Guaratiba. Imagens: Web


Início da Barra da Tijuca antes da ocupação

Em 1975, com o país em pleno regime militar (1964 - 1985), fundiram-se o Estado da Guanabara e o Estado do Rio de Janeiro, e a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro foi entregue ao engenheiro Marcos Tamoyo pelo então governador Faria Lima.

Neste mesmo ano, a expansão rumo à Barra começou com o desenvolvimento do Plano Lúcio Costa e a abertura da Auto-Estrada Lagoa-Barra. O movimento coincidiu com o surgimento dos prédios com varanda e dois ou três andares com garagem. Um decreto, assinado pelo prefeito Marcos Tamoyo nessa época, autorizou este tipo de construção.

Marcos Tamoyo apadrinhava toda especulação imobiliária e para Guaratiba seus planos de ocupação passavam pela criação de um novo bairro, com ilhas artificiais, ancoradouros na porta das casas e canais navegáveis nos córregos rasos que serpenteariam pelo manguezal. O Recreio de Guaratiba a pouco tempo proposto por César Maia resvalava nesta ideia com mais de trinta anos de atraso.

Avenida das Américas era apenas um caminho

Numa carta a sua mãe o cartunista Henfil em 12 de outubro de 1977 escrevia:

“E o Marcos Tamoyo? Aquele prefeito eleito diretamente pelas incorporadoras para facilitar o maior boom imobiliário do Rio? Que vai morar num apartamento de 20 bi, onde o condomínio é de 20 milhões mensais e onde mora o seu vizinho (e sócio) Sérgio Dourado?”

Talvez por isso e em virtude disso, o Exército requisitou o terreno que compreendia os manguezais de Guaratiba e a reserva em 1977. Três anos depois, a reserva passou ao Centro Tecnológico do Exército e começou então a luta pela preservação da área.

Existe uma queda de braço entre o CETEX e a Fazenda SAGAP (Sociedade Anônima Granja Agrícola Pastoril) que reivindica 453 mil metros quadrados nos limites da reserva. Não sabemos como anda o processo, entretanto, enquanto a empresa esperava o aforamento, aterrou o terreno. Foi multada pelo Ibama, mas não desistiu da ação. O Exército ainda deve temer que “essa benesse poderá futuramente criar dificuldades para a conservação da área”.

Consegue imaginar que seria construído aqui o maior shopping da América do Sul?

Nos últimos anos, o CETEX encolheu. Tiraram-lhe o Instituto de Pesquisas Especiais, braço militar do programa nuclear brasileiro. O Instituto Militar de Engenharia, que vinha para Guaratiba, continuou na Praia Vermelha. O governo ia transferir o CETEX para São Paulo, a pretexto de concentrar num só endereço todos os programas de pesquisa. O aviso coincidiu com a notícia de que a cidade do Rio de Janeiro avançava para Guaratiba pelo túnel da Grota Funda, furando a barreira física que a mantinha como área rural. Assim como foi decidido, o governo desistiu da transferência.

Vigiada, Guaratiba vinha sendo protegida da especulação imobiliária e da ocupação do manguezal. Nas franjas da reserva, a população diminuía à medida que a cidade crescia. Sempre que saia um morador, o exército derrubava a casa. O CETEX levou quinze anos com uma ação na justiça para desalojar o Clube dos Marambaias, que ocupava uma ilha com 8 mil metros quadrados dentro do manguezal. Neste caso, o exército não demoliu a construção, decidiu transformá-la num campus para botânicos e biólogos.

Iniciava a ocupação mas no Recreio ainda não havia o Terreirão

No ano passado, o Ministério das Cidades prometeu dar títulos de propriedade definitiva a 800 famílias de baixa renda que moram na reserva. Será “o primeiro assentamento urbano em área do Exército a ser regularizado”, anuncia a propaganda oficial.

Hoje vemos o Exército um pouco desinteressado em proteger a região e alguns trechos da Estrada Roberto Burle Marx já estão sofrendo um processo de favelização, já não são mais pequenos casebres de taipa e “pau-a-pique” de pescadores, mas construções irregulares que se erguem ocupando o leito da estrada e o manguezal.

Sem dúvida alguma, ao terminar a construção do túnel da Grota Funda, quando as facilidades da cidade grande estiverem chegando a Guaratiba, com fácil acesso ao mercado de trabalho que vem se formando no Recreio dos Bandeirantes e as possibilidades de emprego estiverem ao lado de casa, a ocupação será de forma exponencial, principalmente ao redor da futura estação da Grota Funda do BRT.

As pequenas entradas que já existem na Estrada da Barra de Guaratiba serão os portões da grande favela que ali irá surgir nos próximos dez ou vinte anos, como surgiu a favela da Rocinha ali pelos lados da Gávea e do Vidigal enquanto a cidade consolidava seu crescimento em direção a Ipanema e Leblon, com o enorme mercado de trabalho que se formava naquela região da Zona Sul e na recém desbravada região de São Conrado.

Como sempre vamos assistir a complacência das autoridades para com as favelas que se formarão na região, assim como vimos a favelização de outros bairros do Rio de Janeiro, vamos apenas confirmar nossa suspeita de que a favelização das cidades brasileiras é uma política de Estado e como tal não pode ser mudada. Afinal é muito mais fácil e econômico deixar que o povo se vire e construa suas precárias moradias sem nenhuma infraestrutura urbana, “o povão” fica satisfeito porque pensa que está levando vantagem e a prefeitura fechando os olhos para as invasões, economiza o dinheiro que gastaria com bairros planejados, casas populares ou obras de infra-estrutura urbana.

Fonte: Parte do texto sobre o CETEX retirado do Site Consultor Jurídico

Fala cidadão(ã)

Atualização semanal - Coluna Fala-cidadão(ã) publicada em 06.04.2010

Agradecimento à arquiteta Dra. Marisa Valente e ao Secretário de Urbanismo, Dr. Sergio Dias

Texto encaminhado por Marco Aurelio Barçante – arquiteto e planejador urbano. Foto: Portal

Marco Aurelio Barçante, em seu nome e de diversos proprietários de Barra de Guaratiba, vem agradecer através do Portal, ao Secretário de Urbanismo, Dr. Sergio M. Dias, que dinamizou o PEU (Projeto de Estruturação Urbana) para Guaratiba, dando condições para que a admirável coordenadora do PEU (Projeto de Estruturação Urbana), arquiteta Dra. Marisa Valente e sua equipe, avançassem bastante em sua confecção, já tendo definido os principais parâmetros para a região.

Esperamos que a promessa de entrega do PEU ao Prefeito, para envio à Câmara, até pouco depois do meado do ano, seja efetivamente cumprida. Para tanto, a Coordenadora terá de resolver com as demais Secretarias Municipais os termos finais do PEU, para levarem à Audiência Pública que será marcada com toda a comunidade.

Tenho certeza que todos de Guaratiba anseiam pelo término do PEU (Projeto de Estruturação Urbana), de forma a prevalecer a ordenação urbana sustentável. Não desejamos mais a continuidade das ocupações clandestinas e as ocupações desordenadas. A demanda da região se fortalecerá, em todos os sentidos, com o up-grade que ela obterá, em função do início das obras do Túnel da Grota Funda e da implantação do BRT (Bus Rapid Traffic), além da inauguração, em curto prazo, da CSA (Companhia Siderúrgica do Atlântico) e outras importantes indústrias e empreendimentos na região.

Chegou-se a um consenso geral sobre os parâmetros apresentados pela arquiteta Dra. Marisa Valente e sua equipe, que já vêm desenvolvendo suas pesquisas há anos. Houve unanimidade nestas questões, mas ainda, a meu ver, como arquiteto e planejador urbano, falta a apresentação de um plano fomentador do turismo, mais ousado, para a parte mais bela da região, com aproveitamento de várias áreas ainda intactas e de excelente vocação turística.

Terminado o PEU (Projeto de Estruturação Urbana), para não se alongar mais, julgo que a população deve propor, imediatamente, a discussão da ocupação turística que melhor se adéque à região, principalmente em Barra de Guaratiba. Devemos debater a elaboração de um plano turístico de “peito aberto e sem preconceitos”, definindo quais as áreas que devem ser destinadas à industria do turismo, não poluidora e geradora de renda com qualidade, obedecendo aos princípios da sustentabilidade.