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Editorial do Portal e Coluna Fala Cidadão

Atualização semanal - Editorial publicado em 12.04.2010

Guaratiba também tem desabrigados!

Muitas imagens foram distribuídas pela imprensa, seria redundante descrever a tragédia mais uma vez, mas é importante chamar a atenção para alguns detalhes.

Texto: Sergio Mello - Editor do Portal Guaratiba.

Foram muitas as tragédias, essas que assistimos ao longo da última semana. Dramas particulares e desastres atingindo um grande número de pessoas. Famílias inteiras soterradas, isoladas, afogadas desamparadas, enfim, perdidas no meio dos temporais que se sucediam e da lama que insistia em desalojar quem optou por morar nas áreas periféricas longe dos olhos da administração central da cidade ou perto de seus olhos mas acima, nos morros.

Não cabe aqui procurar culpados ou apontar esse ou aquele administrador como responsável por essa calamidade. Todos sabemos que o homem, desde os aglomerados pré-históricos vive e convive com seu próprio lixo. Os sambaquis, por exemplo, sobre o qual viviam os primeiros habitantes do litoral, são grandes lixões. O lixo produzido por uma cidade normalmente é depositado nos seus arredores, e à medida que a cidade cresce, os seus habitantes vão ocupando pouco a pouco essa periferia, e portanto era inevitável que isso acontecesse, pelo menos em épocas passadas. Esses lixões são verdadeiros tesouros arqueológicos e a alegria dos pesquisadores. O Campo de Santana ali perto da Central do Brasil foi uma área usada na época do império para vazamento de lixo, e, ainda bem que as autoridades sanitárias da época transformaram em um parque. Durante escavações para o rebaixamento do gramado do Maracanã, como parte da reforma do estádio para os jogos Pan-Americanos de 2007, engenheiros encontraram peças arqueológicas que podem ser do século 19. Pedaços de louça, ferraduras, ferramentas e ossos de animais, que estavam sob o campo.

Não só o que aconteceu em Niterói no Morro do Bumba, em que a comunidade construída sobre o lixão no morro produziu um deslizamento, mas lixões ocupados em regiões planas tornam o solo instável e como nestas áreas, pode não existir saneamento, água encanada e outras facilidades, o lençol freático do qual muitas famílias extraem a água que consomem pode estar contaminado. Segundo levantamento realizado pelas autoridades existem no Rio 8 bairros e 18 favelas nestas condições.

Resta que as autoridades estabeleçam os parâmetros de ocupação do solo urbano, mas que identifiquem que áreas periféricas poderão ser ocupadas pela população e a partir desta identificação ofereçam a infraestrutura necessária para esta ocupação. Devem ser oferecidos os serviços básicos como saneamento, água, escolas, postos de saúde e o que é o mais importante transporte urbano de alta capacidade. A população precisa de um lugar para morar, e entre morar no Jardim Maravilha ou outro bairro da periferia sem transporte, água, esgoto, enfim nenhum tipo de facilidade e morar no Morro dos Prazeres ou no Bumba, é claro que será sempre mais conveniente, pelo menos de imediato, morar perto do Rei.

A questão das enchentes nas várzeas e deslizamentos nos morros também passa por uma questão de falta de cidadania dos ocupantes dessas áreas. É comum o vazamento de lixo e grandes sacos plásticos com inservíveis, móveis e entulhos nas ladeiras e córregos. Na Ilha de Guaratiba tivemos enchentes provocadas pelo assoreamento dos córregos e entupimento das manilhas por lixo, entulho e galhadas. Já na Barra de Guaratiba, mesmo durante o temporal flagramos grandes sacos plásticos jogados nas ladeiras como se as esquinas fossem lixões. No Jardim Maravilha, com filmes e fotos fartamente distribuídos pela imprensa até este final de semana ainda muitas famílias ainda não tinham voltado para suas casas.

Em entrevista ao Jornal Globo nesse final de semana o Assessor da Diretoria Técnica da Comlurb, José Henrique Penido, afirmava que a produção diária de lixo da cidade era de 8900 toneladas fora o lixo industrial sem contar com os aterros clandestinos e o lixo jogado nas encostas e nos rios.

a incivilidade é democrática. Ricos e pobres jogam lixo nas encostas" - Infelizmente, a incivilidade é democrática. Ricos e pobres jogam lixo nas encostas, nos rios e nas ruas. Não sabem que esse lixo voltará contra eles e custará muito mais caro para todos. É um absurdo que noções de saneamento não estejam na grade curricular do ensino fundamental. Toda criança, rica ou pobre, deveria crescer aprendendo a cuidar do lixo", disse José Henrique.

Segundo dados da própria COMLURB, ela recolhe em Guaratiba o equivalente a 212 gramas por habitante enquanto na Zona Sul esse recolhimento é de 687 gramas por habitante. Isso na verdade ao que nos parece não indica que nós produzimos menos lixo, mas que nosso lixo não está sendo convenientemente recolhido.

Fala cidadão(ã)

Atualização semanal - Coluna Fala-cidadão(ã) publicada em 12.04.2010

Cidadã, embora não seja moradora do Jardim Maravilha, reclama sua urbanização

Texto encaminhado por Juarina Costa.

Não moro no Jardim Maravilha, mas conheço pessoas que moram lá e gostaria de saber quando chegará realmente a vez do Jardim Maravilha. É um absurdo estarem vendendo terrenos neste lugar. Muitos moradores têm escrituras e documentos de seus terrenos comprados com suas economias, construíram suas casas com sacrifício para viverem num lugar decente e não como chiqueiro de porcos, assim como não podem perder o que possuem em enchentes. Na Rua Brejinho de Nazareth e ruas próximas não existe nenhuma urbanização. Existe um processo aberto pelo Centro de Estudos Pesquisa e Ações de Guaratiba de número 10/354.110/2006, no qual houve somente um despacho em 09/01/2009. É um absurdo. O prefeito passou 15 dias na Zona Oeste com a prefeitura itinerante. Passou em vários bairros, inclusive no Jardim Guaratiba já aconteceram melhorias. No Jardim Maravilha nada. Até quando vocês, moradores do Jardim Maravilha vão aguentar essa situação. Comecem a luta, reivindiquem melhorias. É para o bem de vocês.

A UEZO (Universidade Estadual da Zona Oeste) beneficia a quem?

Texto encaminhado por Mônica Lima.

A UEZO (Universidade Estadual da Zona Oeste) foi implantada para sustentar e apoiar o “grande” projeto de desenvolvimento e logística previsto para Zona Oeste. Portanto, todo o processo acadêmico, assim como a própria academia, encontram-se atrelados aos objetivos dos empreendimentos promovendo uma verdadeira mercantilização tecnológica (da ciência no âmbito geral). Ela está voltada para os interesses das empresas e não da sociedade, e este, sem dúvida, não deve ser o objetivo de uma universidade. Falta a formação dos alunos no sentido holístico da questão, já que o conhecimento da vertente destrutiva dos empreendimentos lhes é negado. Além do que, lhes apresentam uma ideia equivocada da realidade.

Indigna-me saber que o curso de Biologia está voltado somente para produção e que a vida e o meio- ambiente não são o foco de preocupação. Não é dada escolha ao aluno, nem tão pouco ele é formado criticamente. Esse projeto que satisfaz a lógica capitalista é muito bem representado pelos financiamentos de projetos de pesquisa das empresas (ou pelo Estado comprometido com as mesmas). Como exemplo, recentemente nossas instituições absurdamente aprovaram transgênicos que só favorecem ao capital.

As empresas (como a CSA – Companhia Siderúrgica do Atlântico, por exemplo) estão dentro da UEZO com um discurso de comprometimento com a geração de empregos, o que gera grande ilusão e disputa. Porém, se a disputa ocorre entre os especializados (alunos que estão sendo formados para tal) indica que a comunidade ficará de fora.

Neste contexto, devemos debater e refletir se é este o projeto de universidade pública que queremos para a Zona Oeste. Poderíamos encaminhar essa discussão e futuramente trabalhar em estratégias para sensibilização da comunidade universitária e da sociedade, como por exemplo:

- criar um espaço dentro da UEZO e da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) (atos, panfletagens, cartilha, vídeos, mesa de debates, etc.). Trabalhar juntamente com as entidades representativas dos 3 segmentos (docentes, discentes e técnico-administrativos) seria uma alternativa. Esse espaço poderia ser ampliado para outras universidades da região.

- denunciar o atrelamento de professores aos empreendimentos.

- discutir com a ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) este projeto de universidade (contatar deputados que poderiam articular a favor desta causa)

- participar dos encontros promovidos pela universidade gerando o debate após as palestras, ainda que não sejamos convidados

- distribuir artigos de especialistas com opiniões divergentes

Reconheço a tamanha dificuldade deste enfrentamento e podemos discutir essa construção.