Notícias de Guaratiba

Acessibilidade no transporte carioca em tempos de Olimpíada

Publicado em 29.03.2012

Texto: Ronado Inácio Andrade / Foto: Portal Guaratiba

Estação BRT com acesso especial para cadeirante

A falta de condições de acesso para portadores de necessidades especiais nos diversos meios de transporte carioca deve ser motivo de preocupação quando sabemos que após a realização dos Jogos Olímpicos em 2016, no Rio de Janeiro, a cidade deverá receber em questão de poucas semanas, os Jogos Paraolímpicos que serão realizados após o término da Olimpíada convencional, embora a grande preocupação, hoje, esteja voltada apenas para os Jogos Olímpicos.

A Prefeitura do Rio saiu na frente em relação às providências gerais na melhoria das condições de acessibilidade em vários setores da cidade, sendo um bom exemplo disto algumas medidas adotadas nos novos corredores BRT que em breve estarão disponíveis em todas as regiões. Nas suas estações e nas próprias composições do BRT haverá plenas condições de acesso para portadores de necessidades especiais.

Infelizmente, talvez por despreparo ou inexperiência, alguns setores de nossa sociedade ainda não se prepararam como deveriam para que, não só na Paraolimpíada, mas também no dia a dia normal dos portadores de necessidades especiais, certas providências que agora começam a ser adotadas, fiquem em caráter definitivo, tornando o Rio uma cidade igual às outras do primeiro mundo onde estes problemas já foram resolvidos.

Em atendimento à solicitação da FIFA (Federação Internacional de Futebol Association, que deverá gerenciar a realização da Copa do Mundo em 2014) e COI (Comitê Olímpico Internacional), a cidade adotou uma das recomendações que foi a preparação da metade da frota de ônibus municipais para receber os portadores de necessidades especiais. Entretanto, estes cidadãos que quase sempre passam por vexames e humilhações quando necessitam entrar nos meios de transporte da cidade, ainda não podem contar com um serviço eficiente dos consórcios de ônibus devido a motivos diversos, tais como:

- falta de treinamento de motoristas dos coletivos para operação dos elevadores de portadores de necessidades especiais,

- falta de horários fixos na maioria das linhas para a circulação de ônibus com elevador para cadeirante,

- falta de manutenção nos elevadores, elevadores com mal ou nenhum funcionamento quando acionados,

- falta do dispositivo que aciona os elevadores dentro dos coletivos,

- motoristas que fingem não enxergar quando um cadeirante sinaliza para tomar o ônibus,

- passageiros mal educados, que reclamam quando o coletivo leva mais tempo para o embarque ou desembarque de portadores de necessidades especiais,

- falta de uma campanha de esclarecimento à população sobre o direito de cidadãos portadores de necessidades especiais utilizarem o transporte público como qualquer cidadão.

A TV exibiu outro dia, duas senhoras revoltadas reclamando "tenho horário para chegar ao trabalho" quando o coletivo onde estavam parou para embarque de um cadeirante. O elevador de acesso apresentou defeito e a demorada tentativa de embarque foi abortada. Como havia câmeras e um ajuntamento local de repórteres, logo apareceram guardas municipais e agentes da CET Rio que como reza a Lei, retiraram o coletivo de circulação. As senhoras citadas, talvez se comportassem de maneira mais humana se fossem conscientizadas que ao invés daquele cadeirante uma delas ou um parente próximo poderia estar em seu lugar. O cadeirante na reportagem possuía atividade normal de trabalho como todo cidadão e precisava usar o transporte público. Como se vê é muito oportuno que seja feita uma campanha de conscientização da população, pois estamos a apenas quatro anos da realização de uma Paraolimpíada.

Culminando esses acontecimentos desagradáveis descobriu-se também que algumas empresas de ônibus adicionaram no vidro frontal dos seus "frescões" ou na porta de acesso o símbolo da acessibilidade (imagem de um cadeirante) sem contudo oferecer nenhuma facilidade para o portador de necessidade especial ingressar no veículo. Além da ausência do elevador ou rampa (daquelas existentes em ônibus de piso rebaixado, que dispensam o uso do elevador), a escada alta em curva e apertada (e roleta em alguns casos), impossibilitam o acesso de qualquer cadeirante. Há exemplos disto em alguns carros da linha 2335 (Castelo x Santa Cruz - Via Pedra de Guaratiba) e linha Caxias x Freguesia (especial c/ar condicionado).

O que se pretende com essa prática é que os ônibus nesta situação façam número para alcançar o somatório exigido para cada linha (ou empresa) possuidora de carros com possibilidade do transporte de portadores de necessidades especiais. Cremos que com o reforço na fiscalização e na legislação da cidade (em verdade em todo o país) fatos como este sejam extintos.

Nos trens e metrô o problema se repete tanto quanto nos ônibus. Em muitas ocasiões o ingresso de passageiros especiais só é facilitado com a participação de anônimos que surgem em meio à massa de usuários, que por seu bom coração e sentido de humanidade, auxiliam valiosamente a cegos, cadeirantes e outros portadores de necessidades especiais.

Em todos os ramais ferroviários do Rio e Grande Rio foram feitas algumas melhorias, mas com o decorrer dos anos não tiveram continuidade e se tornaram inúteis ou insuficientes na maior parte destas linhas. As duas únicas estações onde existem elevadores são as estações de Bangú e Madureira. Na primeira, estes estiveram fora de serviço por quatro anos e recentemente foram consertados assim como as escadas rolantes que estiveram fora de uso pelo mesmo tempo.

Em questão referente à acessibilidade em bairros da cidade, tomamos como exemplo Pedra de Guaratiba, onde a praça principal (Praça Raul Capello Barrozo) em sua última reforma, teve rampas de acesso instaladas em seu "em torno" e em algumas ruas próximas. Entretanto por falta de educação ou orientação (inaceitavelmente o bairro não conta com serviço da guarda municipal) inexistência de placas de advertência, alguns mal motoristas estacionam em frente a estas rampas, impossibilitando assim o uso das mesmas.

Nas linhas de ônibus Barra x Pingo D´Agua, Campo Grande x Pedra de Guaratiba e Barra x Sepetiba (que circulam no bairro) existem alguns carros dotados do elevador que serve aos cadeirantes. Contudo a circulação destes não possui horário fixo. Na linha Santa Cruz x Piraquê feita com micro-ônibus mais antigos, este dispositivo praticamente não existe em nenhum veículo. Nas linhas 2381 (Castelo x P.de Guaratiba) e 2335 (Castelo x Santa Cruz - via Pedra) a informação afixada em alguns carros (símbolo da acessibilidade) é falsa e além de não haver elevador a condição de receber cadeirantes é nenhuma.

A Prefeitura do Rio de Janeiro está de parabéns por sair na frente e resolver o que nunca foi resolvido (ou sequer pensado) antes, ou seja, as condições da acessibilidade para todos em todos os acessos da cidade, inclusive no transporte. Contudo, para que estas medidas sejam bem aplicadas pode-se pensar na contratação de uma comissão formada por portadores de necessidades especiais, que sabem mais do que todos sobre esse assunto e sentem a fundo a verdade de tudo que acontece. Talvez essa seja uma atitude bastante sensata para resolução desses problemas. Existe um grande número de anônimos portadores de necessidades especiais que são grandes profissionais, inclusive em empresas públicas que podem como ninguém apontar e opinar sobre como extinguir essas dificuldades.

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