Notícia

O natal e a realidade nua e crua

Publicado em 25.12.2013





   Texto de Margot Carvalho - Poetisa, escritora e artista plástica



Realidade no mundo Minha mãe, trabalha na casa de uma madame e eu fico com minha vó. Já fui lá uma vez, olhei pela fresta da porta e ela é muito bonita mesmo, foi uma vez só. Eu tinha que ir num hospital que eu não lembro o nome, só sei que eu precisava ir ao médico. A comida que eu comi não era a mesma da madame, comi macarrão com salsicha como lá em casa.

A senhora ... (professora) ... pediu pra fazer uma redação sobre o que eu quero no Natal, então eu vou falar: - "No Natal eu queria uma mesa igual aquelas da televisão, bem linda mesmo cheinha de coisas gostosas e eu comer à vontade, repetir, comer uma coxa inteirinha de peru assadinho, mas se não tiver peru serve coxa de frango, eu sei que gente rica faz uma mesa bonita cheia de coisas gostosas e lá em cada minha mãe faz umas rabanadas, compra banana, maçã, laranja e eu gosto, mas se eu pudesse escolher eu queria tudo isso que eu escrevi".

Anos atrás a redação me chocou profundamente, mas me fez compreender muitas coisas. Aquele menino malcheiroso, desleixado, caderno em frangalhos, com o nariz escorrendo, muito levado que me tirava a paciência, mostrava nas entrelinhas a sua realidade e me fez refletir, e ter um olhar mais humano para com ele. Crianças passam por nossa vida e nos dão lições, esfregando na nossa cara a realidade nua e crua duma sociedade desigual e que me parece imutável. Há várias histórias que nos entristecem, até porque no vai e vem da vida o professor é a figura confiável e a mais próxima.

Cartinhas preenchiam o grande mural dos correios. Meus olhos pousaram numa, em outra e depois de vasculhar, voltei a primeira e nela estava escrito: - "Moro com minha vó desde bebezinho porque minha mãe foi embora com um homem que eu não sei quem é. Queria saber como ela é, até que eu sei mais ou menos, porque minha vó tem um retrato dela e me diz que um dia ela vai voltar. Eu já tenho onze anos e acho que perdi a vontade dela voltar, ela não gosta de mim porque minhas colegas têm mãe pra dar beijo, abraço e eu nem conheço a minha. Sou morena tenho cabelo bem comprido e preguiça de pentear, tomo banho todo dia, gosto muito de estudar, sou gordinha e bonitinha. As minhas colegas tem skate e eu, só fico olhando elas brincarem, porque minha vó não tem dinheiro pra comprar um pra mim, eu entendo porque a gente é pobre e não tem quase nada, mas eu fico pensando: e se alguém pudesse me dar um, eu ia ficar muito contente, elas também andam de bicicleta e eu fico só olhando. Então eu escrevi essa cartinha porque tem gente que gosta de comprar presente e dar, mas se não der pra comprar eu vou entender porque eu sei que é muito caro e só gente que tem dinheiro sobrando que pode. Ah, ainda tem uma coisa que eu queria que deve ser menos dinheiro. Eu queria um estojo de maquiar pra eu ficar mais bonitinha. Noutro dia minha colega me emprestou e eu fiquei tão bonita! Mas também se não puder, eu vou compreender porque minha vó também tem pouco dinheiro que só dá pra comprar comida. Gosto de estudar e quando eu for grande vou trabalhar bastante pra comprar tudo o que eu quero pra mim e pra minha vó".

Quando se fala dos festejos do Natal, confrontados com a realidade dum mundo onde crianças morrem de fome, não há como nossos corações compartilharem alegria, até porque somos todos irmãos com os mesmos direitos.

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