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Blog do Mansur

André Luis Mansur
Jornalista, Escritor
Crítico literário do
Caderno Prosa e Verso do Globo

Eu Prometo

Postagem em 07/08/2010

Para uns, a propaganda política na TV é humor garantido; para outros, coisa séria, mas para a grande maioria sobra apenas a indiferença. E talvez o motivo principal seja a constante repetição dos velhos bordões de promessa. Eis aqui alguns deles, separados por categorias, na campanha do Rio de Janeiro.

SÚPLICAS

Por isso, precisamos do seu voto/Conto com o seu voto/Peço o seu voto/Pode me cobrar

MUITO PRAZER

Você me conhece/Sou um legítimo representante do povo/Vote em quem você conhece/Agora é a nossa vez/Esse é o cara!/Esse não promete. Faz!

MUDANÇA

O Rio precisa mudar/Vote na renovação/O Rio tem jeito/O Rio merece o melhor/Juntos, lutaremos para mudar este quadro

DEIXA COMIGO

Vou defender seus interesses/Pode contar comigo/Pelo respeito ao cidadão/Há oito anos trabalhando em prol da comunidade

E EU COM ISSO?

Sou casado e tenho dois filhos/Trabalhei a vida inteira/Tive uma infância pobre/Sou candidato pela primeira vez

LUGAR COMUM

Transporte barato e de qualidade/Oportunidades para todos/Saúde, educação e emprego/A maior riqueza de uma nação é a educação/Pelo direito da criança e do adolescente/Vou ampliar a verba da educação e da saúde e aumentar os salários de médicos e professores

NOVAS PROMESSAS

Pelos portadores de necessidades especiais/Em defesa da terceira idade/Lutar pelos direitos dos gays e das lésbicas

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Os açoites do Major Vidigal

Postagem em 16/07/2010

A polícia brasileira surgiu em 13 de maio de 1809 no Rio de Janeiro, por ordem do príncipe regente D. João, que havia chegado à cidade um ano antes com toda a sua comitiva, todos fugidos das tropas francesas de Napoleão Bonaparte.

Antes dela, cujo nome oficial era Guarda Real de Polícia, a ordem pública era mantida principalmente por guardas civis desarmados, contratados pelo Conselho Municipal. Somente em casos de tumultos maiores era pedido o apoio de destacamentos do Exército e unidades das milícias denominadas ordenanças. Isso nas capitais e nas cidades importantes, pois no interior e nas zonas rurais quem mantinha a ordem mesmo era o coronel e seus capangas.

Com a Guarda Real, subordinada à também recém-criada Intendência Geral de Polícia da Corte e do Estado do Brasil, surgia uma força policial de tempo integral, com organização militar e ampla autoridade. Os oficiais e soldados da primeira polícia vinham do Exército e recebiam apenas um pagamento simbólico, além de uniforme, alojamento e comida.

A Guarda Real ficaria famosa nos seus primeiros anos graças à figura do major Miguel Nunes Vidigal, que chegaria a segundo-comandante da unidade. Seu alvo principal eram as batucadas que aconteciam nos arredores do centro da cidade e dos quais participavam “pessoas comuns, na maioria escravos, que confraternizavam, bebiam cachaça e dançavam ao som de música afro-brasileiras até tarde da noite”. (1)

Vidigal escolhia seus comandados pelo tamanho e truculência e gostava de usar nas suas rondas um chicote de haste longa e pesada, com tiras de couro cru na extremidade. Os vagos procedimentos legais não eram nem de longe seguidos pelas guarnições do major, que quando chegavam numa batucada também batiam, e muito, em quem encontrassem pela frente.

A imensa maioria das prisões executadas por Vidigal era de negros, incluindo aí os escravos fugidos, o que mereceu o comentário do comerciante inglês John Luccock de que “as leis eram tão imperfeitas ou tão imperfeitamente executadas que parece que os brancos aos poucos se haviam convencido de que estavam acima delas”. (1)

Vidigal e seus comandados também faziam incursões aos quilombos nos arredores do centro da cidade, como o de Santa Teresa, em 19 de setembro de 1823. No dia seguinte, Vidigal entrou na cidade com toda a pompa, “montando um garanhão empinado, À frente de uma coluna de mais de 200 prisioneiros seminus capturados na incursão, entre homens, mulheres e crianças, muitos deles usando colares de conchas marinhas e decorações de penas que sugeriam elementos da cultura africana”. (1)

Os métodos de Vidigal, pelo visto, agradavam aos detentores do poder, tanto que em 1820 ele recebeu dos monges beneditinos um terreno aos pés do morro Dois Irmãos, que nos anos 40 seria ocupado por uma favela que existe até hoje com o nome do major.

Vidigal chegaria a general do exército em 1822, no ano da independência, recebendo a Ordem do Cruzeiro do Sul do imperador D. Pedro I, e se aposentou como marechal-de-campo em novembro de 1824. Seu nome ficaria imortalizado na literatura graças a Manuel Antônio de Almeida, que no seu clássico livro “Memórias de um sargento de milícias” cunhou a temida frase "Lá vem o Vidigal", senha para a debandada de quem estivesse no recinto, principalmente se fosse numa batucada.

(1) - Polícia no Rio de Janeiro - Thomas Holloway

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A Copa do Mundo e os fichas Sujas

Postagem em 01/06/2010

A primeira Copa do Mundo a que assisti de verdade foi a de 82 e lembro bem da fatídica derrota para a Itália, no estádio Sarriá, que provocou a tão famosa comoção nacional. Bem, de lá pra cá, já se foram seis Copas do Mundo e o que venho observando, de quatro em quatro anos, é que alguma coisa realmente mudou. Já não há mais aquela euforia de outrora, quando, mal acabava o Carnaval e “começava o ano” da Copa, ruas eram pintadas e decoradas, você via uma quantidade muito maior de camisas amarelas e de bandeiras nos carros, de vez em quando um ou outro já soprava aquelas cornetas infernais, enfim, havia um frisson, um prenúncio de catarse coletiva que, à medida que ia se aproximando a convocação do escrete, assumia uma condição de paralisação do país, da tal “pátria em chuteiras”, como bem definiu um dia Nelson Rodrigues.

Já vinha notando esta redução do estado de euforia, se é que podemos chamá-lo assim, mas neste ano a coisa chegou ao seu auge, às vezes até dando a entender que não teremos Copa do Mundo e que a vida vai transcorrer tranqüila no mês de junho, apenas com a diferença de que haverá uns joguinhos da seleção aqui e ali.

É claro que o futebol é o esporte mais popular do mundo, mexe realmente com as emoções de quem o aprecia e, no caso da Copa do Mundo, até de quem mal conhece as suas regras. Mas sempre achei um exagero o estado de loucura coletiva que via não só durante a competição, mas já nos meses anteriores, uma dependência completa do resultado da seleção, que se perdesse provocaria uma catástrofe geral, uma quebradeira na economia, que todo mundo ficaria perdido, sem um rumo, sem um horizonte, uma esperança – algo parecido com o que ocorreu na Copa de 82.

Bem, é verdade que a televisão já está nos entupindo de anúncios sobre a Copa, algumas ruas foram enfeitadas, mas realmente não há nada que se compare a tempos como o da carta que Carlos Drummond de Andrade escreveu para o neto Luiz Maurício, um pouco antes da derrota para a Itália: “Aqui vivemos em plena euforia pelo futebol, como se o futuro do país dependesse dos pés de Zico, Éder e Sócrates. As ruas estão inundadas de flâmulas e faixas verde-amarelas, e até o asfalto foi pintado com as cores dos clubes e os retratos dos jogadores. Uma verdadeira loucura que tem um componente de alienação: procura-se esquecer a inflação torcendo pela vitória na Copa do Mundo”.

Pena que o grande poeta de Itabira não esteja mais entre nós para uma avaliação bem mais precisa do que mudou neste longo período de alegrias e frustrações futebolísticas, pois o que me parece que esteja acontecendo neste ano seja realmente um sinal de amadurecimento político, já que a grande mobilização nacional que percebi nas últimas semanas foi em relação à votação dos fichas sujas, que se não foi aquilo que se esperava, já foi um avanço muito grande para um tema que achávamos que jamais seria “votado pela maioria”.

Em recente palestra no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, dentro do excelente evento “Brasil, futebol e livros”, o sociólogo Ronaldo Helal descreveu este cenário de forma bem profunda e abrangente, dizendo que o que acontecia antes é que a derrota ou a vitória em Copas do Mundo ultrapassava as fronteiras esportivas e alcançava uma dimensão de perda ou ganho de “auto-estima nacional”. Quando perdíamos, adotávamos o tal “complexo de vira-latas”, para usar a famosa expressão cunhada por Nelson Rodrigues, e quando vencíamos dizíamos que “com o brasileiro não há quem possa”, fazendo uma referência à música-tema da vitória no Mundial de 58.

Segundo Helal, e concordo plenamente com ele, hoje a seleção brasileira e a Copa do Mundo se limitam simplesmente à esfera esportiva, ainda mais que a seleção hoje é formada basicamente por jogadores que atuam no exterior, o que reduz e muito a empatia com a seleção. Basta ver que as paixões clubísticas continuam acirradas, já que os clubes e seus jogadores estão próximos do torcedor.

Seria muito bom aproveitar esta nova, digamos, mentalidade e desejar que as pessoas voltassem a se mobilizar pelas grandes causas públicas, ainda mais agora, com a grande rede virtual da internet como auxílio. Que a vibração que a Copa do Mundo traz, mesmo para quem nunca acompanha futebol, sirva de estímulo para a esta possível mudança de postura, ainda mais que logo depois vem disputa das eleições, uma “competição” cuja derrota tem um efeito muito mais prolongado do que a de uma Copa do Mundo.

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Rios Antigos

Postagem em 03/05/2010

Um dos principais sintomas da degradação ambiental de uma cidade ocorre quando seus rios passam a ser chamados de valões. Aqui no Rio de Janeiro isso ocorre em todos os bairros e o mais irônico é que a cidade carrega um rio no nome, conseqüência do equívoco dos primeiros navegantes, que, ao chegarem aqui em 1º de janeiro de 1502, confundiram a Baía de Guanabara com a foz de um grande rio. Como estávamos em janeiro, Rio de Janeiro.

Já o rio que deu nome aos nascidos na cidade, o Carioca, é hoje quase totalmente canalizado. Tem apenas um pequeno trecho visível no Largo do Boticário, no Cosme Velho, e desemboca de forma muito mal-cheirosa na Praia do Flamengo. Era às margens dele que o fidalgo português Martim Afonso de Souza morava, em 1531, numa casa de pedra, origem do termo cari-oca, dado pelos indígenas e que significa ´casa de branco´.

Apesar da lastimável situação atual, os rios antigos já foram o principal meio de transporte desta cidade, já que as poucas trilhas que existiam eram perigosas e cheias de obstáculos. Assim, rios como o Maracanã, o Comprido, o Carioca, o Andaraí, o Piraquê, o Meriti, o Piraquara, o Guandu e tantos outros foram responsáveis pela maior parte da movimentação de cargas e passageiros da cidade por muito tempo, sempre atrelados a ancoradouros e portos que já não existem, como os de Irajá e Maria Angu, fundamentais para o escoamento de boa parte da produção agrícola do subúrbio carioca.

Destes tempos de grande importância para o desenvolvimento da cidade só ficaram mesmo os nomes dos rios - boa parte subterrâneos - e os que não passaram por este processo ficam expostos a todo tipo de degradação, não apenas ao esgoto jogado in natura nas suas águas, que nascem limpas e cristalinas nas serras, mas também à falta de educação dos moradores próximos que jogam todo tipo de porcaria em suas águas, de sacos plásticos a cadeiras, sofás e até geladeiras velhas. Um projeto que deu certo aqui na cidade é o dos ´guardiões dos rios´, realizado por pessoas que recebem um salário para não apenas manter o leito do rio sempre limpo mas também as margens. O trabalho recebe o apoio de jardineiros, tambm da prefeitura, que estão transformando alguns rios em verdadeiras alamedas, com plantas e árvores bem diversificadas. Vendo o trabalho bem feito e o cuidado com que o rio é tratado, a quantidade de lixo jogada neles depois que o projeto começou diminuiu consideravelmente.

Mas fica aqui uma sugestão, que já compartilho com alguns amigos: por que não chamar o rio pelo nome? Nos mapas da prefeitura, é fácil identifica-los e alguns têm até plaquinhas. Não que isso vá lá mudar muita coisa, mas só de não chamá-los de valão, nome que simboliza sujeira e podridão, quem sabe eles não passem a ser mais respeitados? Afinal, não dizem que o sujeito só passa a existir quando é batizado?

Eu não sei não, mas depois que passamos a chamar o rio perto da minha casa pelo nome dele, Cabuçu-mirim, afluente do Cabuçu, que desemboca no Piraquê e deságua na Baía de Sepetiba (este poderia ser o seu ´nome completo), já percebi que duas garças aparecem por lá todas as manhãs e ficam se refestelando num banco de areia que surgiu milagrosamente no meio do rio.

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Duzentos Anos de Enchentes

Postagem em 12/04/2010

Por que uma tragédia precisa se repetir indefinidamente? O temporal que provocou o caos no Rio de Janeiro, com mais de cem mortes até agora, carrega um elemento ainda mais dramático, pois está perto de se completar 200 anos uma enchente devastadora que assolou a cidade entre os dias 10 e 17 de fevereiro de 1811 e que ficou conhecida como as “águas do monte”, pois a chuva descia dos muitos morros do centro do Rio e alagava tudo, provocando deslizamentos, desmoronamentos e muitas mortes.

De lá para cá, pelo visto nada mudou. Quer dizer, mudou para pior, pois a cidade se alastrou, sem nenhum planejamento urbano, e hoje apresenta uma situação para a qual não vejo solução, da mesma forma que em São Paulo as enchentes do Tietê vão continuar provocando o caos na cidade.

Nas “águas do monte”, parte do extinto morro do Castelo, berço da cidade, desmoronou, levando junto muitas casas. As igrejas da cidade acabaram acolhendo os muitos desabrigados, por ordem do príncipe D. João, e o principal meio de transporte na cidade acabou sendo a canoa, herança dos indígenas (chegou a haver uma batalha de canoas na Baía de Guanabara na época da guerra entre portugueses contra franceses e tamoios pela conquista da cidade) e que encontra sua referência nas balsas dos bombeiros hoje em dia para tirar gente de ônibus, nas pranchas de surfe e até nos pedalinhos da Lagoa Rodrigo de Freitas, que invadiram a rua e serviram de condução para quem queria fugir das enchentes.

Segundo conta o importante historiador Vieira Fazenda, citado por José Antônio Nonato e Núbia Melhem Santos no excelente livro “Era uma vez o morro do Castelo”, começou a chover torrencialmente às 11 da manhã do dia 10 e “a borrasca, longe de amainar, continuou incessante durante sete longos dias de verdadeiro suplício para os habitantes desta heróica e leal cidade”. As ruas, assim como hoje, viraram “caudalosos rios”, o Campo de Santana se transformou em uma grande lagoa e muita gente morreu soterrada nas casas que ruíram com a grande massa de terra que desceu do morro do Castelo, principalmente as casas do antigo Beco do Cotovelo, na parte do morro que ficava defronte à Ilha das Cobras.

Uma canção muito popular no século XIX guardou na memória dos cariocas a tragédia de 1811. Dizia:

- Vem cá Bitu! Vem cá Bitu!

Vem cá, vem cá, vem cá...

- Não vou lá, não vou lá, não vou lá,

Tenho medo de apanhar!

- Cadê o teu camarada?

- Água do Monte o levou...

Não foi água, não foi nada,

Foi cachaça que o matou.

Registrada por Santa Ana Nery, a letra de “Vem cá Bitu!” deve ser acompanhada pela melodia da cantiga de roda “Cai, cai, balão” e Bitu, segundo conta Vieira Fazenda, parece ter existido mesmo. Teria sido um dos mortos entre as casas soterradas pelo morro do Castelo.

Sua triste cantiga, pelo visto, ecoa até hoje entre os escombros desta cidade que não consegue absorver as tais intempéries da natureza.

- Se puder, veja também meus outros blogs:

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